sexta-feira, 17 de abril de 2009

Os escândalos da catástrofe

AFP
Depois do terremoto, L'Aquila começa a retomar a rotina. Os edifícios mais antigos sofreram muito menos, conta Vera Gonçalves de Araújo
Vera Gonçalves de Araújo
De L'Aquila, Itália
L'Aquila não é mais uma cidade fantasma, depois do terremoto que na noite de 6 de abril arrasou metade de seus edifícios e abalou a outra metade, deixando 70 mil pessoas sem casa, nem emprego, nem nada.
Nos grandes acampamentos de tendas azuis armadas pelo exército e pelos voluntários da Proteção Civil, a vida começa a tomar jeito de rotina. Um cabeleireiro garante a limpeza de cabeças empoeiradas, algumas crianças - com muita má-vontade - retomaram as aulas, a universidade recomeçou as provas sob toldos de lona, poucos supermercados reativaram um mínimo de abastecimento para quem - uma minoria - salvou algum dinheiro do terrível tremor de terra.

As operações de resgate de possíveis vítimas ainda vivas nos escombros dos prédios desabados foram encerradas no domingo de Páscoa: os técnicos decretaram que ninguém pôde sobreviver lá embaixo por mais de uma semana. Agora é a hora das escavadoras, que passeiam como monstros amarelos nas ruas do centro e da periferia da capital do Abruzzi.

É a hora das polêmicas e dos escândalos, também. Visitando a zona do terremoto, dois dias depois do sismo, o presidente Giorgio Napolitano convidou os italianos a fazer um exame de consciência. Coisa difícil, e muitas vezes dolorosa.

A primeira coisa que espanta, caminhando aos tropeços nas ruas de L'Aquila, é que a maioria dos prédios que ruíram naqueles malditos 30 segundos foi construída em anos recentes. Os edifícios mais antigos sofreram muito menos, ou pelo menos não se achataram como barquinhos de papel.

Numa região em que, desde dezembro, se registraram mais de 3.000 micro-terremotos e pelo menos 400 tremores de intensidade superior a 3,5 graus da escala Richter - o limite a partir do qual o ser humano percebe muito bem o que está acontecendo - o fato não pode ser só uma simples coincidência.

É evidente que quem construiu aqueles edifícios não respeitou as regras, como vem descobrindo o procurador geral de L'Aquila, Alfredo Rossini. Segundo o jornal Corriere della Sera, as estruturas de dois prédios que ruíram total ou parcialmente - a Casa do Estudante e o hospital San Salvatore, que está fechado - foram construídos utilizando um concreto armado que apresentava uma quantidade muito baixa de ferro.

As normas de construção prevêem que as colunas de cimento armado contenham pelo menos 16 hastes de ferro. Essas normas - que deveriam ser aplicadas principalmente nas zonas sismicas, quer dizer na Itália inteira - não foram respeitadas, na maioria dos prédios mais recentes de L'Aquila. O procurador Rossini (que continua dormindo no seu carro e reúne a sua equipe num banco da praça) mandou instalar câmaras de videovigilância em todas as áreas da cidade, para vigiar as ruínas antes da chegada dos técnicos do tribunal: várias pessoas assinalaram a presença de pequenos caminhões que circulam pela cidade roubando entulho.

Outro escândalo do pós-terremoto é o da areia. Cimento armado é mistura de cimento com pedras, areia e água reforçado com uma armação de ferro. A armação - ao que parece - não valia nada. Pior ainda, o cimento foi misturado com areia de mar, que se deteriora muito mais do que areia de água doce. Mas tem uma qualidade muito respeitada pelos construtores italianos: custa menos.

Nos laboratórios da polícia, os peritos estão examinando uma montanha de pó, do que restou das casas de L'Aquila, para descobrir de quem é a culpa. Porque a culpa não foi só do terremoto.

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